Jacupará
a jacutinga
Na
floresta úmida e quente pairava o som de zumbidos. Insetos
esvoaçavam por toda parte: perto dos rios,nas moitas e arvores
onde brotavam flores e frutinhas. Sob sol forte,não se ouviam miados
ou grunhidos dos animais da noite. Mas quem prestasse atenção
ouviria muitos barulhos: longe e perto,os piados das aves. O macuco,
o canto penetrante da araponga,a suave melodia do sabiá,e tantos
outros!
No
meio de tudo,o ruido inconfundível de grandes asas batendo e os
piados das jacutingas no começo um tom groso e depois, mais fino.
O
bando de jacuparás estava chegando,cada casal se ajeitando no alto
das arvores
Empoleiravam-se
nos ramos;procurando frutos,insetos,e também galhos fortes e
protegidos,bons para fazer ninho. Era tempo de botar ovos.
Mamãe
jacutinga se ajeitou no ninho confortável que construía. O macho
descansava por perto,acomodado num galho mais alto .A fêmea segura e
sossegada, encolhida as penas bem pretas das asas, esquentando os
três ovinhos que pusera. Quase um mês se passaria ate que os ovos
se rompessem para o nascimento dos filhotes de jacupará. Eles seriam
miúdos magrinhos,com os bicos pequenos sempre abertos a espera de
alimento. Mas cresciam logo.
Um
mês depois de saído de um daqueles ovos ,o pequeno jacupará já
voava. De repente batia as asas negras e la se ia! De um galho a
outro de arvore a arvore em voos curtos ele se elevava,sabia pousar
com segurança,sabia encontrar comida gostosa
No
mundo verde que era a floresta,os filhotes de jacutinga cresceram. A
mata era grande e as arvores altas. Havia frutos,brotos e insetos em
quantidade para alimentar as aves. Jacupará já não era pequeno: o
bater de suas asas fazia balançar folhas quando voava. Seu piado
soava forte na mata entre o canto dos pássaros menores e os zumbidos
dos insetos.
Quando
o bando mudava de lugar,ele ia junto, as asas negras manchadas de
branco abertas, bonitas contra o céu azul, o papo vermelho
aparecendo em meio ao verde.
Mesmo
que não voassem para longe nem muito alto,era belo o voo das
jacutingas pela floresta.
Mas
as arvores eram o seu mundo e a sua vida. Era nelas,la no alto que os
jacuparás se sentiam em casa,construíam ninhos, encontravam
alimento. Por isso,quando os homens entraram na floresta e começaram
a cortar as arvores,arrancar as plantas,levar embora os troncos, o
mundo diminuiu para as jacutingas.
Sem
a floresta fechada,elas não podiam viver. Sem as arvores altas e
protetoras,cheias de brotos e frutos,elas não conseguiam se
reproduzir.
Um
dia,ao escutar o ruido dos homens, jacupará voou,depressa,na mesma
direção das outras aves. Não viu que uma delas caia atingida por
armas de fogo,sendo depois levada por caçadores.
Refugiado
num galho alto,mais para o fundo da mata,Jacupará descansou sem
perceber que agora o bando era menor
Na
floresta,agora menos úmida e mas quente, quase já não se ouvia o
zumbido dos insetos. Nem se encontravam muitas moitas e arvores
cheias de brotos. Sob o só forte,quem prestasse atenção ouviria
novos barulhos e não mais os piados das aves. Onde escutavam o grito
do bem-ti-vi, o trinado do macuco, o canto da araponga,a melodiado
sabiá? Vez por outra um deles soava,para logo ser abafado pelo
barulho das motosserras e pelo tronco
dos caminhões
cheios de toras. E
as jacutingas onde estariam?
Voando
cada vez mais para o meio da floresta,escondendo-se dos homens que
chegavam de todos os lados a derrubar as arvores,Jacupará,a
jacutinga,seguia. O ruido inconfundível grandes asas batendo e o
piado forte ecoando na mata soavam solitários. Eram tão poucas
agora as aves do bando.
Pousado
num galho grosso,comendo os brotinhos verdes e tenros na ponta dos
ramos, Jacupará mais uma vez ouviu a aproximação dos homens.
Aquietou-se no galho,e logo a arvore toda balançou. Piou alto,bateu
as asas e voou para outro lugar. Num instante a arvore caía,com
grande barulho. PLAAAAF! Duas outras jacutingas do bando,um
casal,tombaram junto com ela. Os homens correram para
pega-las,contentes. Não viram que Jacupará,a salvo voava sozinho
para longe dali. Com as asas negras manchadas de branco
abertas,bonitas,contra o céu azul,o papo vermelho aparecendo em meio
ao verde, Jacupará,a jacutinga,voou. Sabia agora que não bastava
mudar de arvore. Era preciso ir mais longe e mais alto. Cada vez mais
alto.
Onde
estarão as jacutingas ?
Escondidas
no que restou da Mata Atlântica, nas poucas arvores grandes,nos
locais altos e inacessíveis,aonde os caminhos dos homens, com suas
motosserras e armas,ainda
ão chegaram.