segunda-feira, 23 de abril de 2012

Jacupará, a jacutinga


Jacupará a jacutinga

Na floresta úmida e quente pairava o som de zumbidos. Insetos esvoaçavam por toda parte: perto dos rios,nas moitas e arvores onde brotavam flores e frutinhas. Sob sol forte,não se ouviam miados ou grunhidos dos animais da noite. Mas quem prestasse atenção ouviria muitos barulhos: longe e perto,os piados das aves. O macuco, o canto penetrante da araponga,a suave melodia do sabiá,e tantos outros!
No meio de tudo,o ruido inconfundível de grandes asas batendo e os piados das jacutingas no começo um tom groso e depois, mais fino.
O bando de jacuparás estava chegando,cada casal se ajeitando no alto das arvores
Empoleiravam-se nos ramos;procurando frutos,insetos,e também galhos fortes e protegidos,bons para fazer ninho. Era tempo de botar ovos.
Mamãe jacutinga se ajeitou no ninho confortável que construía. O macho descansava por perto,acomodado num galho mais alto .A fêmea segura e sossegada, encolhida as penas bem pretas das asas, esquentando os três ovinhos que pusera. Quase um mês se passaria ate que os ovos se rompessem para o nascimento dos filhotes de jacupará. Eles seriam miúdos magrinhos,com os bicos pequenos sempre abertos a espera de alimento. Mas cresciam logo.
Um mês depois de saído de um daqueles ovos ,o pequeno jacupará já voava. De repente batia as asas negras e la se ia! De um galho a outro de arvore a arvore em voos curtos ele se elevava,sabia pousar com segurança,sabia encontrar comida gostosa
No mundo verde que era a floresta,os filhotes de jacutinga cresceram. A mata era grande e as arvores altas. Havia frutos,brotos e insetos em quantidade para alimentar as aves. Jacupará já não era pequeno: o bater de suas asas fazia balançar folhas quando voava. Seu piado soava forte na mata entre o canto dos pássaros menores e os zumbidos dos insetos.
Quando o bando mudava de lugar,ele ia junto, as asas negras manchadas de branco abertas, bonitas contra o céu azul, o papo vermelho aparecendo em meio ao verde.
Mesmo que não voassem para longe nem muito alto,era belo o voo das jacutingas pela floresta.
Mas as arvores eram o seu mundo e a sua vida. Era nelas,la no alto que os jacuparás se sentiam em casa,construíam ninhos, encontravam alimento. Por isso,quando os homens entraram na floresta e começaram a cortar as arvores,arrancar as plantas,levar embora os troncos, o mundo diminuiu para as jacutingas.
Sem a floresta fechada,elas não podiam viver. Sem as arvores altas e protetoras,cheias de brotos e frutos,elas não conseguiam se reproduzir.
Um dia,ao escutar o ruido dos homens, jacupará voou,depressa,na mesma direção das outras aves. Não viu que uma delas caia atingida por armas de fogo,sendo depois levada por caçadores.
Refugiado num galho alto,mais para o fundo da mata,Jacupará descansou sem perceber que agora o bando era menor
Na floresta,agora menos úmida e mas quente, quase já não se ouvia o zumbido dos insetos. Nem se encontravam muitas moitas e arvores cheias de brotos. Sob o só forte,quem prestasse atenção ouviria novos barulhos e não mais os piados das aves. Onde escutavam o grito do bem-ti-vi, o trinado do macuco, o canto da araponga,a melodiado sabiá? Vez por outra um deles soava,para logo ser abafado pelo barulho das motosserras e pelo tronco dos caminhões cheios de toras. E as jacutingas onde estariam?
Voando cada vez mais para o meio da floresta,escondendo-se dos homens que chegavam de todos os lados a derrubar as arvores,Jacupará,a jacutinga,seguia. O ruido inconfundível grandes asas batendo e o piado forte ecoando na mata soavam solitários. Eram tão poucas agora as aves do bando.
Pousado num galho grosso,comendo os brotinhos verdes e tenros na ponta dos ramos, Jacupará mais uma vez ouviu a aproximação dos homens. Aquietou-se no galho,e logo a arvore toda balançou. Piou alto,bateu as asas e voou para outro lugar. Num instante a arvore caía,com grande barulho. PLAAAAF! Duas outras jacutingas do bando,um casal,tombaram junto com ela. Os homens correram para pega-las,contentes. Não viram que Jacupará,a salvo voava sozinho para longe dali. Com as asas negras manchadas de branco abertas,bonitas,contra o céu azul,o papo vermelho aparecendo em meio ao verde, Jacupará,a jacutinga,voou. Sabia agora que não bastava mudar de arvore. Era preciso ir mais longe e mais alto. Cada vez mais alto.
Onde estarão as jacutingas ?
Escondidas no que restou da Mata Atlântica, nas poucas arvores grandes,nos locais altos e inacessíveis,aonde os caminhos dos homens, com suas motosserras e armas,ainda ão chegaram.